terça-feira, 10 de março de 2009

"As queixas de Polifemo" por Teócrito

As queixas de Polifemo (Idílio)

As queixas do ciclope Polifemo inspiraram um encantador idílio deTeócrito: "Sentado num rochedo muito alto, de olhos fitos no mar, para aliviar os pesares, cantava:

"Ó formosa Galatéia! Por que foges de mim? Quando me olhas, é maisbranca que o leite, mais doce que o cordeiro, mais leve que a novilha; mas quando desvias de mim os teus lindos olhos , oh, então és mais azeda que a uva ainda verde...
"Vens a estas praias quando o sono me fecha as pálpebras; mas apenas os meus olhos se abrem à luz do dia, foges como a ovelha foge do lobo sanguinário...
"Comecei te amar, jovem ninfa, no dia em que, pela primeira vez, vieste com minha mãe colher os jacintos na montanha, eu indicava o caminho.
"Desde então, nunca mais tive repolso; não posso já viver longe da tua presença, e entretanto Júpiter é testemunha, nada te importas com a minha dor.
Sei, ó mais bela das ninfas, sei porque foges de mim; é porque espêssas sobrancelhas, sombreando a minha testa, se prolongam de uma orelha a outra; é porque só tenho um olho, e o meu nariz alargado desce até os lábios...
"No entanto, apesar de ser o que sou, apascento mil ovelhas, espremo-lhes as mamas, bebo-lhe o delicioso leite; o verão, o outono ou o inverno, pouco importa; sempre tenho excelentes queijos...
"nenhum ciclope me iguala na arte de tocar oboé, e muitas vezes, tu que eu adoro, tu que és mais doce que a maçã rubra, muitas vezes eu te celebro nos meus cantos, durante a noite sombria...
"Para ti nutro onze cervozinhos enfeitados com um belo colar e quatro pequeninos ursos; vem ao pé de mim, e tudo o quanto possuo te pertencerá.
"Mas se os teus olhos se ferem com os longos pelos que me eriçam a pele, tenho lenha de carvalho e um fogo que nunca se extingue sob as cinzas; vem, e eu estou pronto a tudo sofrer, entrego-te a minha existência inteira e o meu único olho, este olho que é mais precioso que a vida.
"Ai, por que me recusou a natureza nadadeiras? Iria a ti através das ondas, beijar-te a mão se me proibisses um beijo em teus lábios.
"Jovem ninfa, se um forasteiro chegar a estas praias, quero que me ensine a mergulhar no fundo do mar; irei ver que poderoso encanto vos retém sob as ondas, tu e tuas companheiras.
"Somente minha mãe é a causa de todos os meus males; somente ela é que eu acuso; nunca te falou do meu amor, ela que todos os dias me via fenecer; mas por minha vez, para atormentá-la, dir-lhe-ei: "Sofro, sim, sofro muito."

Teócrito - (cerca de 310 a.C.-250 a.C.) Filósofo grego, poeta bucólico e autor de mimos nascido em Siracusa, na Sicília, colônia da Magna Grécia, no sul da Itália, que viveu em Kós e e depois foi viver na corte de Ptolomeu II (309 - 247 a. C.), em Alexandria, onde foi membro da plêiade dos poetas alexandrinos e cuja obra tornou-o o maior poeta da antiguidade grega, sendo considerado o autêntico fundador do estilo poético pastoral.
Embora tenha atingido grande prestígio por todo o mundo helênico, de sua obra resta a recompilação conhecida como Idílios, que quer dizer eidyllia, diminutivo de eidos, que também pode significar pequenos poemas, idílios. Era composta de trinta poemas de diversos gêneros, escritos em dialeto dórico literário e, em sua maior parte, na forma de diálogo e onde os personagens são pastores com seus amores felizes ou infelizes. Dos seus poemas que chegaram até os tempos atuais, os trinta poemas idílicos e vinte e quatro epigramas curtos, também há autoridades no assunto que questionam a autoria de alguns.
Dos poemas idílicos, dez são pastorais, outros relatam a vida citadina ou temas mitológicos. O seu seguidor mais célebre foi Públio Virgílio Marão (70-19 a. C.) que, nas Eclogas, introduziu a forma pastoral na poesia latina.

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